Há UMA HORA MINHA - Cikeve

HÁ UMA HORA MINHA


Só o dia é feliz e sorridente

Como o é o meu amado

A mim, cabe apenas uma missão:

Plantar e colher e guardar e resguardar

silêncios deste amor?


Deu-me, por isso, a tia a missão de ser

sempre dia

Dissera-me na preparação que seria apenas 

a raiz de árvore gigante

De todos os ventos e tempestades


E mesmo quando intensas

E congelarem-me o corpo e a alma

Quando o meu amado viaja noutras marés

Constrói seus céus

Volta no seu saltitar

brusco

E desfalece a lua

Não arroteia a terra, mas colhe os seus frios

frutos

Fria e desabridamente,

Devo ser raiz

Trajar vozes e toques

Trajar édenes.


Acender os fogos pelas manhãs

Preparar a cesta

Sentar no tempo

E aguardar pelo amado.


A ele e só ele cabe desenhar a medida do

meu céu?

Os ecos são ainda visíveis.


Seu olho, meu olho

Sua boca, minha boca

Infinito amor?



Confesso, pinto-me ainda em dia.

Da minha tia, sou ainda tempo

Das sempre noites que chega o meu amado

Sempre diferente

Sempre indiferente

E o vazio acolho de mim sombra-sua


Mas há uma hora minha nesse tempo

Há uma hora minha de pintar a preto

De pintar a roxo esses olhos e essa boca

Que resguardam silêncios e túmulos


Há uma hora minha

De ir de vez “saltar o cercado”.


06/08/2021

Comentários

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Biografia de Cikeve, escritor angolano

MIRAGENS